Alemanha e o café

     A história dos germânicos com o café é de longa data. Na cadeia produtiva desse grão, os alemães dominam grande parte dela, especialmente os setores mais lucrativos, somente o plantio, atualmente, eles não estão diretamente envolvidos. Desde 1877, imigrantes alemães e companhias colonizadoras compraram pequenas propriedades  e construíram ferrovias e portos na Guatemala (Região de Alta VeraPaz)* e em outras áreas da América Central. Deste modo, fomentaram há muito tempo uma rede logística de abastecimento para a Alemanha e todo continente europeu. 
      Durante a 1ª Grande Guerra (1914-1919), muitos desses fazendeiros alemães tiveram suas terras desapropriadas pelos governos da América Latina, entretanto, fora das áreas cafeeiras, a malha logística, comercial e industrial alemãs resistiram ao duro golpe da guerra. Nesse período, as casas de comércio dos EUA aproveitaram o vácuo deixado pelos germânicos e montaram uma poderosa malha econômica por todos os países produtores na América Central e América do Sul. (PENDERGRAST, M.2010 P.33; 136)  
     A Alemanha, junto com os EUA, são os maiores importadores de café brasileiro. Na Europa, Itália e Alemanha, compram por volta de  8,6 milhões de sacas de grão verde ao ano do Brasil e do Vietnã. Essa composição de exportadores é para aproveitar o melhor dos dois mundos cafeeiros, pois do Vietnã eles desejam o volume, a cafeína e a cremosidade do café robusta e do Brasil, os sabores e qualidades do café arábica. Esse blend serve grande parte do consumo europeu.
     Os germânicos chegaram a essa posição, pois lideram o comércio com os países desenvolvidos, eles detém as exportações de café industrializado e reexportação do café verde, há muito tempo transformaram o café em uma grife, no velho continente. 
Essa hegemonia não é por acaso, ela foi construída com infraestruturas físicas e virtuais. A chave é logística: o território alemão está interligado com toda europa por uma malha ferroviária extremamente difusa e capilarizada. Comercializar os cafés, verdes e industrializados, das várias partes do mundo para toda a Europa é estratégico. 
      A anexação de valor é um projeto de política industrial. A cidade de Schwerin, divisa com a Dinamarca, possui uma fábrica da Nespresso. A saca de 60 kg, que sai a R$400 dos produtores brasileiros, na média de 2019, transformada em quilo vale R$6,6, após industrializada, numa cápsula, é vendida com preço final por R$400 o quilo.
     Outro exemplo,é a NKG Kala Hamburg,  a empresa beneficia e armazena cafés do mundo inteiro, na cidade portuária de Hamburgo.Além dos serviços citados acima, a NKG aperfeiçoou o trabalho de mistura dos cafés arábica e robusta, de acordo com o gosto das várias partes do mercado europeu, serviço que poderia ser feito nos países de origem e, por outro lado, recebe para poupar os mercados consumidores da Europa. O descuido dos exportadores é tão grande, que a empresa lucra com a limpeza dos grãos verdes, que ainda chega a Alemanha com até 4% de impurezas.Técnicas de aprimoramento dos grão e preparo para diferentes torras são feitos pela empresa, dentre os mais conhecidos estão -  grãos espremidos, inchados, introdução em processos químicos para oferecer diferentes gostos ao produto na xícara. Os cafés da NKG servem as companhias Sara Lee, Aldi, Starbucks, West Coffee, entre outras. Estima-se que os grãos processados podem servir 50 bilhões de copos de café anualmente. 
     O contexto acima, não pode ser uma forma de indignação contra a atual força alemã na cafeicultura. mas sim um exemplo de como as infraestruturas, físicas e virtuais, além de um a política industrial, empresarial e de Estado, fomenta uma rede de geração de empregos e prosperidade geográfico-econômica.  



*Cabe destacar, que essa colonização ocorreu, paralelamente, com o abandono e exploração da população guatemalteca. 

PENDERGRAST, M.Uncommon grounds. 2010

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